Isabela quando dança

Aquele jeito completamente sem jeito de dançar fazia Isabela ser a melhor imagem daquele lugar, sem dúvida, sem nem precisar olhar de novo. Só que olhei, voltei várias vezes. Eu não sabia mais que ritmo a banda tocava porque esqueci de ouvir. Inclusive podia jurar que estavam há duas horas na mesma música. De toda forma eu nem ia mais até lá pra ouvir, mas sim pra ver Isabela e soletrar seu nome enquanto triturava as pedras de gelo em meus dentes no fim de um gole em alguma coisa. Ia pra vê-la debochadamente linda girando fora do tom. Sempre que posso vejo Isabela dançar e não preciso ver mais nada; por semanas.

Fêre Rocha

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Amor de traça

Achei a cartinha de amor que ganhei aos 12 anos. A caixa onde guardei a carta estava mofada. O papel tinha buracos de traças.

O amor não é páreo para os fungos. As promessas de amor têm buracos de traças.

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Feito pra acabar

Comentamos que precisaríamos de roteirista tão bom quanto aquela nossa amiga. Sim, pois só a ficção vinda de uma mente foda mudaria o cenário ali mesmo, em pleno quinze para as oito de uma noite fresca onde o taxista não esperava nada além de um mesmo dia, numa mesma esquina. Nem o moço tão bêbado que fez de todos os seus dias um roteiro triste e nos olhou com cara de foda-se. Nem a gangue atravessando o parque quebrando as lâmpadas do lugar já tão escuro. Só no melhor dos roteiros cotidianos para desesperados em congelar as horas, poderia ter alguma graça aqueles quinze para as oito num quase deserto sem novidades, juntos, cruzando a praça. Só ela acrescentaria na história que a árvore à esquerda deveria ter um balanço alto, sem dono, nos encarando como um pedido para sentarmos. Os personagens clichês sentariam? Dane-se o clichê. Nós sentaríamos e balançaríamos porque toda a vida faria sentido e nunca mais seriam oito horas assim outra vez. O escuro do parque abraçado por um sem número de árvores nos invejaria. O vento também. Por isso, na mesma cena, ele apagou nosso baseado com a mesma rajada que fez o balanço ir mais alto. Mais alto até que nossa incurável visão romântica do mundo achando mesmo que um dia alguém faria o tempo parar em tal cena. Mas o mundo era nosso em alguns minutos e decidimos que tudo parasse. Nossa roteirista seria tão compreensiva, chocolates já enviados pra tentar convencer, que toparia incrementar a hora do balanço com música de fundo que nem ela mesmo gosta ou acredita. Voltaríamos saltitantes feito bestas inebriadas pelo mesmo caminho da ida, até nosso porto – quase – seguro, da volta. Ela mesma, a roteirista foda, deve ter adorado os chocolates porque o cenário nunca mais foi o mesmo e lembramos até hoje de ter ouvido Jeneci cantando baixinho “a gente é feito pra acabar”.  Trememos de medo que o som fosse profético. Temos logo que ligar pra nossa amiga escrever pra gente novos roteiros como aquele. Será que ela gosta de vinho?

Fêre Rocha

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