Feito pra acabar

Comentamos que precisaríamos de roteirista tão bom quanto aquela nossa amiga. Sim, pois só a ficção vinda de uma mente foda mudaria o cenário ali mesmo, em pleno quinze para as oito de uma noite fresca onde o taxista não esperava nada além de um mesmo dia, numa mesma esquina. Nem o moço tão bêbado que fez de todos os seus dias um roteiro triste e nos olhou com cara de foda-se. Nem a gangue atravessando o parque quebrando as lâmpadas do lugar já tão escuro. Só no melhor dos roteiros cotidianos para desesperados em congelar as horas, poderia ter alguma graça aqueles quinze para as oito num quase deserto sem novidades, juntos, cruzando a praça. Só ela acrescentaria na história que a árvore à esquerda deveria ter um balanço alto, sem dono, nos encarando como um pedido para sentarmos. Os personagens clichês sentariam? Dane-se o clichê. Nós sentaríamos e balançaríamos porque toda a vida faria sentido e nunca mais seriam oito horas assim outra vez. O escuro do parque abraçado por um sem número de árvores nos invejaria. O vento também. Por isso, na mesma cena, ele apagou nosso baseado com a mesma rajada que fez o balanço ir mais alto. Mais alto até que nossa incurável visão romântica do mundo achando mesmo que um dia alguém faria o tempo parar em tal cena. Mas o mundo era nosso em alguns minutos e decidimos que tudo parasse. Nossa roteirista seria tão compreensiva, chocolates já enviados pra tentar convencer, que toparia incrementar a hora do balanço com música de fundo que nem ela mesmo gosta ou acredita. Voltaríamos saltitantes feito bestas inebriadas pelo mesmo caminho da ida, até nosso porto – quase – seguro, da volta. Ela mesma, a roteirista foda, deve ter adorado os chocolates porque o cenário nunca mais foi o mesmo e lembramos até hoje de ter ouvido Jeneci cantando baixinho “a gente é feito pra acabar”.  Trememos de medo que o som fosse profético. Temos logo que ligar pra nossa amiga escrever pra gente novos roteiros como aquele. Será que ela gosta de vinho?

Fêre Rocha

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Perdoe-nos, Gustavito

hippoooo

Se você pudesse
pediria ajuda em espanhol
em pleno chão da
América Central?

perdoe-nos pela ironia
onde nem teu país
de nome a prometer
esperança
esse Salvador, não te poupou
de nós
você nos amaldiçoa em espanhol?
porque a língua de bicho
nunca será a fala da gente
porque têm vergonha
eles os bichos,
dos nossos olhos a brilhar e
bocas que salivam
a cada novo prato de
violência (des)humana e
gole de perversidade

Perdoe-nos você e
os outros hipopótamos
estamos ainda perdidos
tais quais criança na multidão
não sabemos onde enfiar o ódio
que nos habita, nem mesmo sabemos
o que fazer com o tal polegar
opositor

Fêre Rocha

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Borboleta desgraçada

borboletaaaa

E era uma troca, eu diria, perfeita quando éramos nós. Os meses que me impediam de vê-la eram longos, imensos. Uma ausência de sufocar, tanto que pra não encarar tal sufoco fiquei por vezes sem procurar por ela. Mas aí acontecia de a gente se falar. Então meu amigo, acontecia tudo, uma avalanche com seus blocos de neve a me soterrar de sensações e lembranças.

Lembro ter dito a ela das tais sensações que me provocava. Que ela me botava num estado parecido com uma viagem de ácido. Só que com carinho e tesão juntos, um pacote completo. Ela era o ácido que não posso comprar. Falei também que às vezes sonhava com ela na nitidez de uma tv de Led última geração. Bobagem? Ela sempre achava que era exagero ou que eu nem lembrava dela assim tanto. Minha meta por vezes fora fazer ela acreditar que era uma mulher da melhor geração e o quanto ela não fazia ideia do que nossas memórias me causavam.

Falávamos de qualquer assunto com a permissão natural e açucarada. Nada feria, toda palavra era bem-vinda e nua de preconceitos. Nada feria, só nossa ausência. Tínhamos visto naquele ano um bloco de carnaval de nome esquisito, “borboleta desgraçada”, rimos muito. Passamos anos lembrando disso, depois chorávamos escondido. Desgraçados. Repetíamos nossas preferências na cama, um elogiando o outro em tom de súplica. Negociei com ela a bundinha, acho que a saudade estava aguda, ela até prometeu pensar.

O melhor é que ela sabia que em qualquer condição aceitaria vê-la. Qualquer uma. Até mesmo sentar ao seu lado numa missa segurando sua mão e despedir-me apenas com abraços.

Desgraçadamente vivemos mais que as borboletas, meu amigo. É tempo demais pra não saber quando vamos pousar no mesmo lugar outra vez.
Me escreva também, o que tem feito?

Fêre Rocha

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