O repositor

mercado

Em meio a tanta gente passando, se esbarrando e procurando, lá estava ele calmamente fazendo o que devia ser feito. Usando a mesma concentração que um contador, empresário, professor, dentista ou sapateiro deveria usar, ele colocava uma a uma, duas em duas, em pencas, os cachos, as caixas. Um repositor de supermercado, só mais um seria, se ele não estivesse trabalhando com o prazer e tranquilidade que esperamos ver nas pessoas, daquele jeito que gostamos de assistir.

E era bom de assistir, parar para olhar. A cada cacho de bananas vinha uma estrofe suavemente cantarolada, num tom nem alto, nem baixo e nem exibicionista demais. A cada lugar arrumado podia-se ouvir do jovem partes de músicas da Legião Urbana. “É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser, quando me lembro de você…” e se abaixava para apanhar novas frutas e colocá-las no lugar. Peguei o que era preciso, mas achando tão convidativa cantoria e a possibilidade de diversão ao fazer compras, voltei outras tantas vezes a rondar o setor e escolher algo mais.

Uvas, maçãs e melancias e com verdadeira determinação trocava de música, uma após a outra como se ele mesmo fosse o próprio ‘playlist’. E o repertório do repositor de supermercado era grande, nada de só as mais famosas, super conhecidas. Era belo ver como nada tirava seu foco de continuar aproveitando o seu dia, mesmo que no trabalho. – Ei moço, sabes onde tem abacaxi? – Sim, ali na fileira de trás senhora­­­­­­­­­­­. E então ele seguia. “Mas temos muito tempo, temos todo o tempo do mundo… somos tão jovens…”

Mais outras tantas interrupções e algumas funções extras ele precisou fazer. Às vezes caíam frutas no chão, lógico. Outras um supervisor chamava, os consumidores com suas dúvidas, a laranja que sujou o chão, mas o rapaz era obstinado e assim juntou e limpou a sujeira da laranja. “Sou um animal sentimental, me apego facilmente ao que desperta o meu desejo…” Ele realmente não cessou com as músicas, depois foram tantas outras. Pela primeira vez eu não quis ir embora correndo de um supermercado e pela primeira vez também voltei para casa cantando sem parar. “Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, geração Coca-Cola…”.

(Fernanda Rocha)

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10 respostas para O repositor

  1. Nando velho disse:

    gostei bastante!
    muito inspirador
    rsrs
    estava no mercado pensando na crônica?
    Do mesmo jeito que da vontade de fotografar o que se vê, de uma maneira diferente, vc escreve sobre um cotidiano de uma maneira que as vezes nem percebemos…
    gostei gosteiii…
    Beijão!!!

  2. Rafael disse:

    Eu estava lá e vi como era bom de ouvir o repositor/cantor!

  3. Camila disse:

    Praticamente uma lição e vida né!Estamos tão preocupados com nosso futuro, com o sucesso de nossas carreiras,com os nossos possíveis amores e familiares; que acabamos esquecendo de aproveitar o agora, o hoje, nos menores momentos…afinal, a nossa vida é o conjunto destes momentinhos..

  4. Naty disse:

    Nossa…muito joia, eu fiquei aqui me perguntando se era do big q istvc tava falando..se era verdade essa historia, mas pelo comentario do Rafa axo q eh vero mesmo neh!Que legal…realmente, o mundo d un jeito q qse nem percebemos! Beijo!

  5. Andy disse:

    Legal!! Nessas horas da uma vontadezinha de ter uma profissão em que podemos executar as tarefas tranqüilamente, mantendo a concentração apenas no serviço que está sendo feito, sem se preocupar em gritar e xingar e podendo, em lugar disso, cantarolar! O que não tem sido meu caso rss, já que não sei mais sair de uma sala de aula toda escabelada e empoeirada de giz.

    bjoks Fereh

  6. Abelha disse:

    Literalmente…”quem canta os males espanta”.

  7. Aline disse:

    Adorei!
    Acho tão bonito as pessoas, suas individualidades, particularidades, o modo como fazem e encaram a vida!
    Pequenos detalhes que fazem toda a diferença!

  8. leticia disse:

    eu quero uma pessoa para depositor de musicas

  9. Pingback: No mercado… « Canto de Escritos

  10. MiroPenna disse:

    Po, porque será que eu não havia lido esse? Tudo a ver ! Parabéns Fereh!! Cada vez te admiro mais !

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