Conto da Fêre

Foto: Divulgação

Sobre pés descalços e joaninhas

 

Tinha cabelos longos, caracóis só nas pontas. Eram bem escuros os cabelos, e a mãe lhes enchia de “frufruzinhos”, fitas de todas as cores em variados penteados. Na altura em que ela estava ainda não podia alcançar o pote de biscoitos proibidos. “Só depois de almoçar tudo”, a mãe dizia. Não era ainda a altura necessária para quebrar certas regras, para esse tipo de aprontação.

As mãozinhas ainda eram gorduchas, numa idade em que se vê uma linha bem definida entre a mão e o punho. Um desenho bem bonito as mãozinhas redondas. Ela já podia se aventurar em atividades mais arriscadas como ser figurinista de suas  bonecas. E com total liberdade de expressão, as roupinhas e as cores eram postas de múltiplos jeitos e igualmente divertido era lhes arrumar os cabelos. O que a menina mais gostava era essa super liberdade de bagunçar, puxar, amarrar, até cortar! E as bonecas ali sem reclamar.

Ela gostava de ser ela. Não havia como não gostar quando o pai chegava em casa (parecia ter demorado 20 horas), ele fazia assovios com a boca para anunciar a chegada. Era quase um evento! E então às vezes tinha aquela brincadeira: o pai com a filha em cima de seus pés dançava pra lá e pra cá. Era um momento só deles.

De pés descalços saía correndo pela casa. Batia a canela nos móveis (só as vezes), e ficava mancha roxa na perna. Nem doía. E tinha o cachorro que era bem grande, quase maior que ela, uma festa. Ele parecia entender tudo o que ela dizia (e não dizia). Quando fazia frio se aconchegavam um no outro. Tão peludo, era certo que esquentava.

Às vezes aproveitava as poças d’água depois da chuva para comandar barquinhos de papel. Teve uma vez com os barquinhos, em que a joaninha atrevida de asa machucada pegou carona e foi sumir junto a correnteza. Foi quando a pequena se sentiu útil por um instante. Arranjara carona para a joaninha.

E com pés descalços corria pela casa, era frequente, fosse frio ou calor. “Você vai ficar doente”! Ela já nem ouvia a mãe. Ouvido seletivo de criança. Então corria mais ainda. Uma vez levou um tombo porque tinha água do vazamento. Ganhou mais roxos na perna. Achou fantástico o curativo que lhe fizeram e foi mostrar para as pequeninas vizinhas.

Fêre Rocha

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônica e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

10 respostas para Conto da Fêre

  1. Alessandra disse:

    Sou suspeita pra comentar…adoro joaninhas né, mana?!
    Adorei!
    Beijocas

  2. Géssica disse:

    Aaaaa que linda!!!!
    Eu amo las “Vaquitas de San António” =)
    Adoro passar por aqui…

  3. Edegar disse:

    Que bela prosa. Destaca o olhar admirado do adulto já corroído pela maldade do mundo em um saudade gostosa de ser ela própria criança de novo, e poder dividir esses momentos singelos com a protagonista. É um doce que dói na alma pela beleza de um tempo que se foi pra nunca mais voltar em nós, mas que se materializa nos nossos filhos que vêm renovar o mundo. Levam consigo a nossa admiração pelo que são e a dor pelo que fomos e já não somos mais.
    Há uma bela flor se formando nesse botão. Parabéns.

  4. Natalia disse:

    Que lindo…
    O assovio do pai dela …qualquer semelhança não é mera coincidência né? :)
    Muito fofo, imaginei ela com a mão gordinha…

  5. Fernanda Rocha disse:

    Obrigadaaa.
    Amei esses comentários e os pessoalmente tbm.

    Assim é ainda melhor escrever.

    Fereh.

  6. lahiri disse:

    Blza Fereh…imagética da inocência…é o seu estilo…bjss,,(ainda estou nas pesquisas fotográficas)

  7. Grazi disse:

    Lindo, lindo demais! É quase um curta: vemos a garotinha das mãos gordinhas e ouvimos tua voz narrando a história. Parece que você está lendo alto aqui do lado. Acho incrível essa capacidade de colocar a própria voz no texto – não é qualquer autor que consegue. Amei!

  8. Maria Osman disse:

    Que lindo. Nossa, me senti a criança do conto . Que lindo Feh. Que DEUS proteja sempre esse seu Dom . Adorooo

  9. Inês mamis disse:

    Ai sua escritora danada…será q te vi correndo nesses escritos ?muitas coincidências né.o assovio, dançar sobre os pés do pai,um bocado mais de criatividade com uma linda imaginação pra criar essa história tão cheia de vida; me fez mergulhar no tempo, imaginando aquela mãozinha gorducha de uma menina tão querida! Nossa…que lindo! Parabéns.. foi eleita uma das minhas prediletas!

    • Fereh disse:

      Ai mamma, bonito né?
      Sim vc entendeu tudinho.
      Misturei, acrescentei, mas não inventei nadinha.
      A mãozinha é da Nati…os cabelos também!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s