Sobre quando achávamos tudo tão fácil…

Thoughtful Boy Wearing Glasses

A propriedade da casa


Já tinha ouvido aquela conversa mais de cem vezes. O avô estava sempre passando por ali na casa do neto. E eram horas de papo entre a mãe e o avô.

­- Minha filha, já conseguiu? Quanto ainda falta?

– Uns oito ou dez mil pai. A gente está negocioando.

– Isso tudo?

– E é fácil ter uma casa própria?

– Pois é, eu e tua mãe… 30 anos pra terminar de pagar. Mas agora temos nossa casa.

– E assim esses debates se repetiam… sobre quanto tem, quanto falta, casa, aluguel, casa própria.

O neto sentia aflição. Não contava mais que dez anos. Mais ainda assim entendia o que era ver os pais na agonia.

Mas por que essa tal casa própria é tão difícil? Eu sempre espero dois ou cinco meses pra conseguir ganhar o melhor carrinho. Só não entendo como esperar anos pra ter casa. Eu hein!

Sabia bem onde ficava o banco. Lembrava do rosto e nome do moço que era gerente.

E decidiu ajudar a mãe.

– Quero falar com o Orlando, por favor.

– Você está sozinho?

– Aham.

– Sr. Orlando está ocupado.

– Mas preciso falar agora. É urgente avisa ele.

– Da parte de quem?

– Guigo.

– Guigo? É isso?

– É. Rodrigo.

– Ai, tá bem garoto, só um minuto.

E então veio o homem. Com cara, roupa e pressa de gerente.

-Posso ajudar em algo? Falaram que era urgente.

-É urgente ainda moço. A minha mãe quer a casa própria. Você pode resolver pra ela?

O gerente deu um sorriso nervoso. Era curioso, até mesmo bonita a coragem do pequeno. Mas teria em breve que desiludi-lo.

-Não posso dar a casa pra sua mãe. E nem para outras mães de outros meninos.

-Como não? Você tá no banco. Vocês sabem de onde vem as casas.

-Não é bem assim. As pessoas precisam pagar uma parte primeiro. Temos regras.

-A minha mãe pagou uma parte, duas partes, três partes. Mas até agora nada.

-Leva um certo tempo menino. Essas coisas não são baratas.

-Não devem ser né! Verão passado nem fomos pra praia. O pai disse que tinham que guardar pra pagar a casa.

Não sabendo mais como escapar, Orlando tentou passar um pouco de otimismo.

-Veja bem rodrigo. No próximo verão vocês já estarão numa casa maior. E será só de vocês.

-A que eu moro também é nossa. Só mora a gente lá ué.

Orlando preferiu só suspirar.

-Olha seu gerente, ninguém ouve criança mesmo. Pensa que eu sou bobo? Você trabalha no banco! Banco tem dinheiro e dinheiro compra casa que a mãe chama de própria! Não quer ajudar  tudo bem!

…E naquela tarde o gerente deixou de achar que já tinha visto de tudo.

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Uma resposta para Sobre quando achávamos tudo tão fácil…

  1. Natalia disse:

    Hihi que lindinho o texto!
    Coitadinho do Rodrigo…tao pequeno ainda nao sabe como eh a vida real hehe
    Parabens!

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