O dono do pote de aromas

O dono do pote de aromas

Ele era só mais um habitante de Tutafiló como outros milhares. Em meio a uma cidade agitada como essa, com dezenas de tarefas a cumprir, Vantolé não andava lá muito bem. Algo diferenciava Vantolé da maioria, ele tinha um pote bastante interessante. Mais propriamente um pote de vidro extremamente valioso. Mas jamais interessaria a mais ninguém a não ser o próprio dono. O pote guardava inúmeros aromas conectados a imagens seletamente escolhidas pelo dono, Vantolé.

O espaço para armazenamento era imenso e ele lembrou que tinha colocado tantos! Tantos aromas que cuidadosamente coletara de cada situação e pessoa que valera à pena. Vantolé não teve um dia bom, nem bonito, nem suave e nem risonho. O melhor amigo dele tinha ido morar numa cidade distante, seria raro poder visitar, muito longe mesmo. Os últimos dias também não tinham sido muito macios. Tinha saudade das pessoas, do irmão que morava fora do país, da prima com quem brincava anos atrás. Do cachorro amigo de todas as horas, das tantas brincadeiras de peão, queimada, pipa e pega-pega.

Ele gostava da parte adulta da vida… mas não de todas as partes. Por isso lembrou do pote dos aromas e do quanto era privilegiado. Soube que poucas pessoas no mundo tinham a habilidade de capturar os aromas dos melhores momentos e pessoas; mais que isso, sabia como conservar. E conservou por 29 anos, assim como cuidamos de algo precioso ou raro. Aquele dia era o dia de abrir, não ia mais esperar. E em segundos, sentado na cama, iniciou a experiência singular…

Logo sentiu o café. Fresco e forte e artesanal era o aroma preencheu o quarto, assim como que numa transmissão à cores ele pôde ver a avó na cozinha da casinha verde de madeira. Logo em seguida outro rápido de reconhecer: adocicado, quente, agradável. Era a mãe. Aquela cena em frente a ele foi lindíssima. Viu a própria mãe o abraçando no seu aniversário de oito anos. Era realmente precioso e poderoso o alcance das memórias transmitidas pelo pote de aromas.

E veio cheiro de picolé de abacaxi, filtro solar… e então a imagem se formou no quarto. Viu o melhor amigo de toda uma infância e uma cena muito alegre onde os dois brincavam na praia, catavam conchinhas e faziam altos castelos de areia. Em seguida um cheiro incômodo, uma poeirinha branca surgia. Dona Mitaló, a professora dos anos primários. O cheiro era do giz, giz para quadro negro e a cena uma ótima lembrança. Dona Mitolé era quase uma ídola para Vantolé. Ele achava que ela tinha todo o conhecimento do universo e uma letra muito bonita. Ela sabia de números e palavras, ela falava de bichos e mapas. Como gostava da dona Mitolé, que hoje só poderia ser vista no pote, já não estava mais viva.

E ainda vieram vários outros aromas-imagens. O cheiro da caixinha do jogo novo… apareceram dezenas de imagens dos dias em que ganhou brinquedo novo. E ele ainda sentiu e viu terra molhada da fazenda do tio. O cobertor azul que cobria a família toda no frio. Era velho, mas cheirava amaciante. Veio cheiro de flores, era o jardim da primeira casa da sua vida. Foram horas vivenciando as partes prediletas do que fora a vida dele até então. E aliviado Vantolé pegou a tampa metálica, se despediu de tudo, fechou bem o pote e seguiu em frente.  Ele tinha uma reunião do trabalho em dez minutos, contas a pagar e muita grama pra cortar.

Fêre Rocha


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9 respostas para O dono do pote de aromas

  1. Ali disse:

    Sensível e belo. Candidato a favorito.

  2. Leonardo disse:

    Não sei porque, no meio do tornado que é uma segunda-feira de trabalho, reservei um minuto para ler esse conto. Muito bom Fereh. Algumas semelhanças com a vida real, ou coincidências?
    De qualquer maneira, nós e Vantolé, não sei pelo aroma de café, nem tampouco em Tutafiló, na “casinha verde de madeira”, vimos a avó. huahauahsvdhsvbsjdhfvsdfs… não é seuqela de f.d.s….
    1 abraço.

    • fereh disse:

      Puxa Léo!! Que lindo…adorei o que vc escreveu.
      Sim algumas semelhanças não é? E vc já desvendou quais são…
      Que bom que sabemos valorizar momentos e guardá-los como faz o Vantolé!
      Bjos.

  3. Kelly disse:

    Aiiiiii que lindo Fereh!!!!

    Adorei……….

    E antes mesmo de ter visto os comentários..

    Parecia estar vendo as cenas na casinha verde!!!

    bjoooooo

  4. Natalia disse:

    Eu gosteiii….e como o Léue…associei a casinha verde de madeira com a realidade…o cheirinho de café…hmmm…mto bom parabéns!

  5. Ariane disse:

    e veio cheiro de bolinho de arroz, de bolinho de chuva, de bola de sabão, de ….eu quero um pote destes! :( bj com aroma..Gente mergulhei nos cheiros que foi uma viagem transcendental!

  6. Grazi disse:

    Fereh, uma das coisas mais lindas que eu já li na vida. Ri e chorei, tudo antes do ponto final. Obrigada pelas imagens, e pelos aromas.

  7. Inês mamis disse:

    Nooossa Fereh! Quanta coisa passou pelos meus olhos da alma qdo li este conto maravilhoso!Ahaaa…reconheci vários trechos viajando e relembrando.Eu que sou uma pessoa vidrada em cheiros, quase uma “perdigueiro farejador”, soltei do vidro o cheiro de camiseta nova nos meus 10 anos de idade.Que cheiro fantástico ela tinha; e o cheiro de um livro novo, ou de um álbum de figurinhas!!Esse Vantolé sabe das coisas né?

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