João perdido

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João perdido

João havia perdido há muito tempo, de um jeito de não mais achar. Assim mesmo, ele teve e um dia perdeu. Como o pé de meia que um dia você dá falta e acha que logo vai encontrar, mas não encontra mais. Como a tampinha da pomada que caiu no chão e você já vai pegar, mas não pega e ela desaparece, pluft, assim.

Fazia um tempo que se dava conta do sumiço, apesar da constante procrastinação sabia bem que precisava urgentemente encontrar. Afinal, se perdemos algo de valor vamos logo em busca, correndo.

Mas João deixou para amanhã, que virou semana que vem, que acabou sendo no outro mês e quando percebeu, alguns anos já tinham se passado. Lembrava-se de ter perdido ali pelos 18 anos, não muito depois. Tanta demora em buscar o que lhe faltava pesou no calendário de João, que ao acordar naquela manhã com a idade de 33, somou e sentiu um frio na barriga pelos 15 anos que voaram até então.

Ele lembrou de frases de alguns amigos seus que diziam sobre o esquecimento ser algo provocado por nós. Uma priorização de lembranças para aquilo que queremos fazer e a exclusão daquilo que não temos vontade, interesse. Por que ele não buscava com vontade? Por que passou tanto tempo assim, confortável, sem recuperar o que se foi?

Mas de hoje não passaria, João levantou e como de costume saiu para trabalhar. Durante o dia em meio às conversas e acontecidos, se frustrou muito como em geral fazia. Ficou de birra, andava lidando tão mal com suas frustrações. Queria tudo do seu jeito e logo, se não ganhava algo como queria ficava irritadíssimo, como criança fazendo cena.

Quando chegou em casa procurou em todos os cantos como de costume. Abriu todas as portas e gavetas, vasculhou entre papéis e onde fosse possível vasculhar. Pediu para todos os santos, mesmo não acreditando em nenhum, fez promessas que não cumpriria jamais. Num último apelo e com mais determinação do que nunca, decidiu mais uma vez perguntar para ela, sua mãe. Quem sabe ele ainda não havia feito a pergunta certa, ou ela teria se esquecido por um momento, afinal os anos passaram.

João olhou fixamente para a mãe. Ela percebendo que finalmente ele estava pronto e essa era a hora, apontou assim com a cabeça mesmo e direcionou os olhos para baixo. João sentiu como se uma resposta viesse à tona para sua mente, sentiu vergonha de ter demorado tantos anos a encontrar e por opção! Sem mais desculpas e fugas abaixou-se e pegou rapidamente debaixo da saia de sua mãe. Achou, agarrou com força e sem medo de então vestir e usar a sua maturidade.

 Fêre Rocha

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7 respostas para João perdido

  1. Inês mamis disse:

    Noossa, que escrito interessante!Comecei meu dia lendo-o e gostei muito, e até me identifiquei na parte que fala das memórias selecionadas.Bom demais.De onde sai tanta inspiração?

  2. Muito bom, Ferê! Depois de ler, eu me lembrei da música “Comentários a respeito de John”, do Belchior. :))

  3. Aline disse:

    Adorei e me identifiquei em algumas partes :) Parabéns Fê!!!

  4. Vívian Ferreira disse:

    Ah adorei! Fê, como sempre, nos presenteando com suas lindezas, que talento!

  5. Natalia disse:

    Pobre João, demorou mas um dia acordou…
    Parabéns, bjuu!

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