Juliano Guerra e a música de múltipla linguagem

JulianoGuerra

Foto: Felipe Yurgel

Um dos músicos que mais tenho ouvido ultimamente no Soundcloud é o gaúcho Juliano Guerra. O som tem ótimas letras, batidas lindas e é bastante original. Não à toa agradou muita gente na rede e claro, no Rio Grande do Sul. O disco Lama (de 2012) deve ser ouvido, mesmo. E vem disco novo por aí. Acompanhe a entrevista.

Quando você viu que era o Juliano músico?

Eu prefiro pensar que eu sou um criador, mais do que propriamente um músico. Eu já dei tiro pra tudo que é lado, pintei quando era criança, escrevi, publiquei contos por aí, mas a música também foi uma presença forte desde muito cedo. Aos 6 anos eu já escrevia e desenhava meus próprios gibis, então com 8 ganhei um tecladinho da Cassio que nunca mais larguei e ali já era mais interessante pra mim inventar meus negócios do que tentar reproduzir o que eu ouvia na rádio ou na TV, por exemplo. Enfim, eu penso na música como uma ferramenta de expressão, uma ferramenta com a qual eu tenho mais afinidade do que qualquer outra que eu tenha tentado até agora, com a qual eu me sinto mais à vontade. Não sei se sou músico, eu uso a música pra construir, compor, que é o que me interessa.

Antes você escrevia? O quê? Ainda escreve por aí?

Eu fui bastante ativo na literatura faz uns dez anos. Dá pra achar muita coisa que escrevi nessa época espalhado pela internet, na Drill Press, na Germina Literatura, em outros lugares. Eu devo ter pelo menos uns 10 blogs abandonados, cada um com dois ou três textos. Acabo sempre perdendo o interesse e voltando pro blog um ano depois, sem lembrar da senha nem do e-mail que usei, então crio um novo que em seguida abandono também. Eu escrevia principalmente contos. Arrisquei umas poesias perdidas por aí. Ainda não sei bem o que pensar sobre a minha literatura hoje, talvez eu precise ficar mais velho pra escrever alguma coisa que preste.

 O que você costumava ouvir, o que tá ouvindo ultimamente?

Eu escuto muita música e muita coisa diferente. O artista mais constante nesses meus últimos 10 anos de vida, por diversas razões, deve ser o Sérgio Sampaio, que eu raramente fico uma semana sem ouvir. De resto, gosto muito de música popular brasileira. Tive todas aquelas fases de descoberta da bossa, depois (embora cronologicamente o sentido seja inverso) Noel Rosa, Ismael Silva, os grandes sambistas do começo do século XX. E ultimamente tô ouvindo muito da vanguarda paulistana, Grupo Rumo, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque, essa turma – sim, uns anos atrasado, mas nasci em 83, o que fazer?

 Quando foi lançado o disco Lama? Conta um pouco sobre esse trabalho.

O Lama foi lançado em agosto de 2012. O disco surgiu de uma série de tentativas frustradas de abandonar a música e também de um encontro muito fortuito com alguns músicos. Em especial aqui eu falaria do Itajair Rosa, líder de uma banda de baile bastante conhecida no sul, a Sapatinho, que me pôs pra tocar desde guitarra em carnaval até violão em boca e me ensinou o pouco que eu entendo hoje sobre palco, sobre o que me move pra fazer um show, etc. Depois do Ita, tenho que lembrar o Eugenio Bassi, um compositor e amigo antigo aqui mesmo de Pelotas, que já foi meu colega de banda uns anos atrás e foi quem, digamos assim, me convenceu a gravar o disco da maneira como foi gravado. Pra quem se interessar sobre o (algo divertido) processo de gravação do Lama, tem um texto bem legal do Roberto Soares Neves, que esteve no meio do mato durante as gravações com a gente e publicou o resultado pelo E-Cult, um caderno cultural pelotense.

Como acontece o teu processo de composição?

O meu processo funciona, levando em conta a razoável liberdade que permite quanto a horários e coisa e tal, como qualquer outro trabalho: eu sento ali pra compor e componho. É claro que essa fase que eu chamo de “composição” na verdade é só o último ponto de um processo muito mais longo, que é o de observar as coisas, anotar nos diferentes cadernos e blocos que eu tenho, frases ou palavras interessantes, ideias ainda sem uma direção específica, ou apenas ideias bem formuladas mas sem o conteúdo, sem os versos, a dicção, a melodia, a letra. Quando eu sento pra compor, na verdade sento é para “limpar” esse material bruto que acumulo e procurar um formato ideal, ir polindo, arrematando. Vejo compor muito mais como uma coisa de artesão, de ourives, de gente meticulosa, do que como essa visão mais exagerada do “jorro de inspiração” e por aí vai.

O que é fazer música popular, sem frescura?

Pra mim, fazer música popular é lidar com esse material riquíssimo que é a canção. Eu entendo que tomar pra si esse papel de compositor popular é dar continuidade (seja por negação ou apropriação) de uma história fantástica, de uma série de acontecimentos, de personalidades, e – especialmente – de um vasto repertório. Ninguém está reinventando a roda (e eu, especialmente, não tenho interesse em reinventar absolutamente nada), procuro fazer boas canções seguindo diretrizes estéticas que eu mesmo fui e vou construindo ao longo do tempo.

Verdade que tem disco novo chegando? É parecido com o primeiro?

Verdade. O meu próximo disco se chama “Sexta-Feira” e vai sair em 2015. Ele já está completamente gravado, foi um processo bastante intenso que tomou muito de 2014. Acho que o disco tem diferenças com relação ao primeiro. Quanto às composições, não acho que eu seja o melhor juiz/crítico de mim mesmo, mas posso falar da sonoridade: procurei nesse disco um outro clima. Enquanto o Lama trazia em sua sonoridade, seus timbres, os microfones e instrumentos usados, claramente o processo artesanal lo-fi através do qual foi criado, o “Sexta-Feira” é muito mais um disco “de banda”, com uso de bateria, uma maior variedade de instrumentos.

E shows, conta pra nós por onde foram e onde serão?

Eu fiz menos shows do que gostaria com o Lama, mas também não posso dizer que procurei muitos shows. Lancei na minha cidade natal, Canguçu – RS, em um baita de um show com uns 10 músicos no palco e teatro lotado. Pra mim já valeu o disco. Depois tive um bom lançamento em Pelotas e voltei pra minha rotina de pequenos shows, às vezes tocando meu repertório autoral, às vezes fazendo releituras. No final de 2012 surgiu a oportunidade, graças aos amigos Beto Menezes e Roberto Denser, de ir lançar o disco na Paraíba. Com esse show em João Pessoa acabei emendando um outro, em um evento do bairro de Tibiri, Santa Rita. Em janeiro desse ano eu fiz shows na Bélgica e na Alemanha também, uma experiência muito interessante.

Faço aquele que será meu último show esse ano aqui em Pelotas mesmo, no dia 3 de Dezembro. É um show híbrido, com músicas do Lama, singles lançados depois dele e ainda algumas canções inéditas.

Em 2015 pretendo divulgar meu novo disco e fazer mais shows. Gostaria muito de me apresentar em outras cidades e regiões do país. Gosto muito dos dois videoclipes que fizemos pro Lama (Inclemente, dirigido pelo Rodrigo Elste, e Transeunte, do Gustavo Serrate) e tenho pensado também sobre isso, quais músicas justificariam um vídeo nesse segundo disco.

Acompanhe o trabalho de Juliano:
www.julianoguerra.com
www.facebook/julianoguerramusica
www.soundcloud.com/julianoguerra

Clipe de Inclemente:

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2 respostas para Juliano Guerra e a música de múltipla linguagem

  1. Jarbas Gaston Siebiger disse:

    Entrevista boa pra caramba. Já conhecia o JG escritor, desde os idos do Orkut. Este ano, tive o prazer de me inteirar da produção musical, que divulgou no Facebook. Resgata uma página da MPB, que é o chorinho. Parabéns, Fêre, por trazer um pouco mais deste talento aos nossos olhos e ouvidos. E, é claro, parabéns Julian Starwars (assim o chamava), porque creio na estrelas.

    • Fereh disse:

      Jarbas!
      Obrigada pela tua leitura que só deixa ainda mais bacana essa rede bloguística.
      Honra ser amiga de um baita escritor e humano como és.

      Fêre

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