Lá no fim do assobio

Imagem: Eva Uviedo

Nunca te escrevi um poema porque
nem tinha idade que me deixasse porque
não pude nos dias de mais saudade
e nos outros também não porque
o tempo e as coisas daqui
as tantas e tantas coisas daqui
empurram a saudade pra um quarto
onde a porta é meio emperrada
dona de uma chave velha
não é porta que se atreva a abrir todo dia
(ninguém se atreveria)
o tempo (generoso esse) de quando em vez
fecha aquela porta com força
e tal qual vendaval traz só
memórias e leveza, que essas
não foram trancadas em quarto algum.
Nunca te fiz um poema
escrevi sim em algum pedaço de diário, agenda
alguma lasca de desespero não esperado, mas
nunca te escrevi poema porque
não quis te revisitar nas linhas
tive medo
tive saudade
tive você tão pouco que
não bastou minha poesia.

 

Fêre Rocha

 

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2 respostas para Lá no fim do assobio

  1. Fêre, que coisa mais linda, profunda e sincera que eu acabo de ler aqui. Emocionou a moça aqui do outro lado da telinha.

    “não é porta que se atreva a abrir todo dia
    (ninguém se atreveria)
    o tempo (generoso esse) de quando em vez
    fecha aquela porta com força
    e tal qual vendaval traz só
    memórias e leveza, que essas
    não foram trancadas em quarto algum.”

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