Solitude

Entre os uivos em nossas paredes ocas e apenas nelas é que percebemos a impossibilidade da presença de outros uivos durante o caminhar. Não há externo, não há alguém por você lá, mas também há. Há sempre porção de presenças afetuosas que ausentes se farão logo ao dobrarmos a esquina. Os caminhos são parecidos a todos, somos nós que fingimos não ser, com nossa ilusão psicotrópica desde quando paridos. Os bandos, os pares, os afins, os acolhedores e os que nos causarão algum prejuízo, sempre estiveram e estarão. Não falo sobre viver só, um não precisar arrogante; mas sim da absoluta solitude necessária para se poder tornar algo que valha a vinda nesse caos bonito e áspero. Mas é nas paredes ocas, resistindo aos abandonos, aceitando que ninguém é caminho pra voltar pra casa, que aceitamos. Vemos que de fato vivemos em relações de conveniência, na maior amplitude que a palavra possa ter. E é tão humano o descarte. E é tão humano o descartar em forma sutil ou exibida nesse convés do desinteresse. Nada errado. Ninguém pode ser caminho pra ninguém e a gente sempre soube. Entretanto, ter coragem pra ficar só nas paredes ocas ouvindo os próprios uivos, quase ninguém tem.

Fêre Rocha

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Moscas bebês

escultura de Sue Clark

Note, João, que as moscas estão a diminuir. Morre-se menos, do morrer de fora, do cair ao chão e a carne então sumir. Percebe, João, que temos menos mortos? As moscas bebês vão ter que morrer prematuramente porque findam menos corpos sobre o chão. Eu sei, eu sei o que vais me perguntar. Mas e essas mortes ao redor, impondo toda sua força? Estamos morrendo em mesmo tanto que antes, João. Agora, de uma morte discreta, recatada e quase protocolar. Morremos por dentro.

Fêre Rocha

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Habilmente

Viver exige muitíssima habilidade. Esquecer-se disso, mais ainda.

Fêre Rocha

Imagem: divulgação

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