Piedade de Nós

Ainda lembro que sabíamos de cor todas as orações e a ordem com que seriam ditas as rezas. E no domingo, especialmente movimentado como formigueiros no inverno, nem precisávamos usar da preocupação em sermos vistos ou criminosamente silenciar algum ruído porque ninguém ouviria nossas preces mundanas. Todos estavam quase sempre concentrados nas passagens bíblicas muito bem interpretadas pelo padre Otávio. Tinha uma maioria cantando em uníssono “derrama senhor, derrama”; e a gente concordando com essa estrofe era impagável. Cochichávamos que tudo bem usar aquele lugar de vez em quando, pois tinha espaço (e as sobras de algum vinho), além do que deus tinha ditado a alguém que amássemos uns aos outros, então lá estávamos obedecendo religiosamente. Lambendo e consagrando nossas hóstias, grudados e salvos num próprio paraíso, ali, na sala dos fundos da igreja da sagrada família.

Fêre Rocha

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Na nuvem

Na madrugada, quando dormimos, os deuses passam horas exaustivas em programas avançadíssimos de edição. Editam nossa vida, recortam, montam, pra gente não lembrar de tudo. Jamais. Escolhem as memórias que vamos dar conta de guardar e as que devem ser deletadas. Perto de amanhecer finalizam e salvam tudo na nuvem, obviamente.

Quem não dorme acorda com a memória danificada. E acúmulo de arquivos. Mas essa parte a gente já sabia.

Fêre Rocha

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Magnética

imagem: divulgação

ao final da ressonância
qual não foi minha surpresa
ao pedido em refazer as
imagens tão borradas
de palavras repetidas
onde lia-se: você, você, você

.Fêre.

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